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A
HISTÓRIA DO SINDICALISMO NO BRASIL
Neste
espaço apresentamos alguns trabalhos que relatam as origens do
sindicalismo no Brasil, são obras de diversos autores, retiradas de
diversos sites, para facilitar o acesso e a pesquisa sobre o tema. Caso
hajam dúvidas ou interesse em colaborar com este espaço é só
entrarem em contato conosco.
ORIGENS DO
SINDICALISMO NO BRASIL (SINTSEF)
CLASSE
OPERÁRIA
Sua origem
remonta nos últimos anos do século XIX e está vinculada ao processo de
transformação de nossa economia, cujo centro agrário era o café:
substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado; transferência
do lucro do café para a indústria; e poder político nas mãos dos
cafeicultores. Suas primeiras formas de organização foram: 1. Sociedades
de socorro e ajuda mútua; e 2. União operária, que com o advento da indústria
passou a se organizar por ramo de atividade dando origem aos sindicatos.
•
1720 - Um dos primeiros e mais importantes movimentos grevistas
ocorreu no Porto de Salvador, na época o maior das Américas
• 1858 - Primeira Greve - Tipógrafos do Rio de Janeiro, contra
as injustiças patronais e reivindicaram aumentos salariais.
• 1892 - I Congresso Socialista Brasileiro. O objetivo da Criação
do Partido Socialista Brasileiro não foi atingido.
• 1902 - II Congresso Socialista Brasileiro - Influência de Marx
e Engels. Obs: Ler trecho do Manifesto página 49.
• 1906 - I Congresso Operário Brasileiro. Um total de 32
delegados na sua maioria do Rio e São Paulo, lançou as bases para a
fundação da Confederação Operária Brasileira (C.O.B.). Nese
Congresso participaram as duas tendências existentes na época: 1.
Anarco-Sindicalismo, negava a importância da luta política
privilegiando a luta dentro da fábrica através da ação direta. Negava
também a necessidade de um partido político para a classe operária. 2.
Socialismo. Reformista, tendência que propunha a transformação
gradativa da sociedade capitalista, defendia a Organização Partidária
dos Trabalhadores e participava das lutas parlamentares. A ação
anarquista começa a se desenvolver entre 1906 até 1924.
• 1913 e 1920 - II e III Congresso Operário, tentando reavivar a
Confederação Operária Brasileira. Desde essa época o governo
tentava controlar o movimento sindical. Exemplo disso foi o Congresso Operário
de 1912, que teve como presidente honorário Hermes da Fonseca, então
presidente da República A greve teve peso expressivo em São Paulo, mas
se estendeu em diversos estados.
• Sindicatos Amarelos (luta imediatista) Nesta época, as lideranças
sindicais eram obedientes à ordem burguesa. Embora dirigissem categorias
combativas como os ferroviários e marítimos, conciliavam com o Estado.
Enquanto isso, os Anarco-Sindicalistas, ao deflagrarem uma greve,
viam como um momento da greve geral que destruiriam o capitalismo.
Auge do movimento anarquista
•
A crise de produção gerada pela Primeira Guerra Mundial e a queda
vertiginosa dos salários dos operários, caracterizou-se por uma irresistível
onda de greves - 1917 a 1920.
• 1917 -
Greve geral. Em São Paulo, iniciada numa fábrica de tecidos e que
recebeu a solidariedade e adesão inicial de todo o setor têxtil,
seguindo as demais categorias. De 2.000 trabalhadores parados
Superação do
Anarquismo - Suas limitações
• Reivindicações
exclusivamente econômicas;
• Negação da luta política;
• Não exigia do estado sequer uma
legislação trabalhista;
• Não admitiam a existência de um partido político operário;
• Não aceitavam alianças com os setores subalternos da sociedade.
Por
estas e outras razões, o movimento Anarco-Sindicalista entrou num
isolamento tornando-se presa fácil do Estado e de sua força policial
repressora. Pode-se inclusive dizer que os anarquistas não conseguiram,
na atuação concreta, ir além dos reformistas amarelos. Embora
conciliassem com o Estado, também não o questionavam, limitando sua
participação através de reivindicações econômicas.
A
influência da Revolução Russa, permitiu que uma dissidência anarquista
fundasse, em 1922, o PCB - Partido Comunista Brasileiro, atraindo um número
expressivo de trabalhadores para o comunismo. O PCB marcou o início de
uma nova fase no movimento operário brasileiro. O objetivo do PCB era
dirigir a revolução no Brasil. Apesar da ilegalidade imposta ao partido
alguns meses após sua fundação, o PCB passou a editar, como órgão do
partido, a revista Movimento Comunista, ainda nesse ano. Publicou
em seguida o Manifesto Comunista e em 1925 iniciou a publicação
do jornal A Classe Operária, com tiragem inicial de 5.000
exemplares, que logo foi aumentada. .
Em
1929 criou-se a Federação Regional do Rio de Janeiro e no mesmo
ano foi realizado o Congresso Sindical Nacional, que congregou
todos os sindicatos, influenciado pelos comunistas, quando se originou a
CGT - Central Geral dos Trabalhadores. Mesmo assim, o Estado continua
tentando cooptar os sindicatos,
•
1922 - Movimento Tenentista. Oposição à burguesia do Café
- coluna Prestes.
• Revolução de 1930 - Conciliação entre os interesses agrários
e urbanos, excluindo qualquer forma de participação da classe operária.
• Eleições de 1930. O bloco operário e camponês (PCB na
ilegalidade) candidatou Minervino de Oliveira. O eleito foi Julio Prestes,
representante da burguesia cafeeira, no entanto um movimento militar
barrou sua posse, resultando a ida de Vargas ao poder. Inicia-se uma nova
fase no sindicalismo brasileiro.
Era Vargas
•
1930 - O Ministério do Trabalho procura conter o operariado dentro
dos limites do Estado burguês. Política de conciliação entre capital e
trabalho.
• Lindolfo Collor, 1º Ministro do Trabalho. Lei sindical de
1931 (Decreto 19770), cria os pilares do sindicalismo oficial no
Brasil. Controle financeiro do Ministério do Trabalho sobre os
sindicatos. Definia o sindicalismo como órgão de colaboração e cooperação
como Estado.
A maioria dos
sindicatos resistiram até meados de 1930. Somente alguns sindicatos (25%)
do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul aderiram a
esta lei. O movimento grevista foi intenso, conseguindo algumas conquistas
como: Lei de Férias, descanso semanal remunerado, jornada de 8 horas,
regulamentação do trabalho da mulher e do menor, entre outros. Algumas
destas leis já existiam apenas para as categorias de maior peso, como
ferroviários e portuários. Nesse momento estendeu-se a todos os
trabalhadores.
Nessa
época predominavam no seio do movimento operário, algumas tendências,
como: Anarco-Sindicalistas -
Federação Operária de São Paulo
Socialistas
- Coligação dos sindicatos proletários de 1934. Lutavam pela completa
autonomia sindical.
Comunistas
- 1934 - Federação Sindical
Regional no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1935 realizam a Convenção
Nacional de Unidade dos Trabalhadores, reunindo 300 delegados
representando 500.000 trabalhadores, quando reorganizam a Confederação
Sindical Unitária, central sindical de todo o movimento operário no
Brasil.
Junto
com as lutas sindicais cresciam também as mobilizações das massas
trabalhadoras. Em março de 1934, é fundada a Aliança Nacional
Libertadora, dirigida pelo PCB, já com Luis Carlos Prestes. Foi
citado no VII Congresso da Internacional Comunista como exemplo de
frente popular democrática - 400.000 membros. No dia 4 de abril desse
ano, foi realizado o primeiro comício da ANL. O governo reprimiu e
decretou a Lei de Segurança Nacional, proibindo o direito de greve
e dissolvendo a Confederação Sindical Unitária. Alguns meses depois,
Felinto Müller coloca a ANL na ilegalidade, estes optaram pelo levante
armado e foram violentamente reprimidos. Foram criados o Estado de Sítio
e a Comissão de Repressão ao Comunismo
Em
1939, Decreto-Lei 1402. O enquadramento sindical, que tinha a função
de aprovar ou não a criação de sindicatos. Este órgão era vinculado
ao ministério do Trabalho. Nesse mesmo ano criou-se o imposto sindical.
Ressurgimento das lutas
sindicais - 1945 a 1964
•
Debilidade do Estado Novo;
• Avanço das oposições;
• 1943 - Manifesto dos mineiros, oposição liberal;
• 1945 - O movimento popular, sob o comando do PCB, conquista a
anistia ampla e irrestrita, libertando os presos políticos, comunistas
que estiveram presos durante todo o Estado Novo. Legalização do PCB;
• Dezembro de 1945 - Eleições presidenciais. Convocação de
Assembléia Nacional Constituinte;
• Lei Antitruste - Desapropriadas empresas estrangeiras lesivas
aos interesses nacionais;
• Fechou-se a Organização Sociedade Amigos da América,
representante do imperialismo norte-americano;
• Reatam-se as relações diplomáticas com URSS. Vargas é deposto e no
mesmo ano acaba a intervenção do Ministério do Trabalho nos sindicatos;
• 1945 - Criou-se o MUT - Movimento Unificador dos Trabalhadores.
Objetivos: romper com a estrutura sindical vertical; retomar a luta da
classe operária; liberdade sindical; fim do DIP - Departamento de
Imprensa e Propaganda; enfim do Tribunal de Segurança Nacional;
• Setembro de 1946 - Congresso Sindical dos Trabalhadores do
Brasil, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2.400 delegados. Os
comunistas criam a Confederação Geral dos Trabalhadores;
• Golpe de 29 de outubro de 1945. Reacionário e anti-popular,
freou os avanços das classes populares. Apesar do golpe nas eleições de
dezembro de 1945, o PCB, que em poucos meses de legalidade tornou-se o
maior partido comunista da América Latina com cerca de 200.000 membros,
conseguiu 10% de eleitorado para presidente da República. Elegeu 14
deputados e um senador, Luis Carlos Prestes, o mais votado da República.
Apesar
do avanço dos setores operários e populares, a elite conservadora através
da União Democrática Nacionalista - UDN e PSD, detinham 70% do
parlamento e com isso barrava todas as investidas do PCB que na ação
parlamentar fazia alianças com o PTB.
•
1946 - Dutra proibiu a existência do MUT e suspendeu as eleições
sindicais.
• 1947 - Determina a ilegalidade do PCB, cassando o mandato de
seus representantes no parlamento.
• 1950 - Último governo Vargas. Novamente o movimento sindical
atinge grande dimensão.
• 1940 a 1953 - a Classe trabalhadora dobra seu contingente.
1.500.000 trabalhadores nas indústrias. As greves tornam-se constantes.
• 1951 - Quase 200 paralisações - 400.000 trabalhadores.
• 1952 - 300 paralisações.
• 1953 - Luta da classe operária contra a fome e a carestia
atingiu cerca de 800.000 operários. Só em São Paulo realizaram-se mais
de 800 greves. Neste ano realizou-se a greve dos 300.000 trabalhadores de
São Paulo (trabalhadores de empresas têxteis, metalúrgicos e gráficos),
participação intensa do PCB. Foram movimentos de cunho político, acima
das reivindicações econômicas. Reivindicavam liberdade sindical, contra
a presença das forças imperialistas, em defesa das riquezas nacionais -
campanha pela criação da Petrobrás e contra a aprovação e aplicação
do Acordo Militar Brasil - EUA. Foi criado o pacto de Unidade
Intersindical, depois transformou-se no PUA (Pacto de Unidade e ação).
Criou-se também o PIS (Pactos Intersindicais) na região do ABC. A indústria
têxtil estava concentrada sobretudo nos bairros paulistas. Nos anos 1950
e 1960 as grandes greves da região foram resultados de ações intensas
dos sindicatos para as campanhas salariais.
• 1924 - 1974 - A grande revolta de 1924 em São Paulo levou o
governo federal atacar a maior capital do país, expulsando estrangeiros
de e atingindo os anarquistas que tinham muito peso principalmente na colônia
italiana. Meio século depois, o movimento proletário cresceu surgindo o
novo sindicalismo, que retomou as comissões de fábrica,
propondo um modelo de sindicato livre da estrutura sindical atrelada e uma
ação classista. Esse fenômeno foi constituído inclusive pelo ABDC
paulista (cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do
Sul e Diadema). São Bernardo e Diadema integraram uma frente de esquerda,
concluindo o PCB, tendo importante participação da AP, responsáveis por
inúmeros movimentos de trabalhadores.
Retomada das lutas sindicais
e criação do Comando Geral dos Trabalhadores - CGT
•
1960 - III Congresso Sindical Nacional. Fundação da CGT - Comando
Geral dos Trabalhadores, para combater o peleguismo, principalmente da
CNTI, dominada por Ari Campista.
• Governo JK - Juscelino Kubistchek - Sem novidades;
• Governo Jânio Quadros - 7 meses (1961);
• Governo João Goulart - Setembro de 1961 a 31 de março de 1964
Parlamentarismo. Janeiro de 1962, plebiscito, retorno ao presidencialismo.
No
campo, os trabalhadores iniciaram seu processo de mobilização desde 1955
com o surgimento da 1ª Liga Camponesa, no Engenho Galiléa. Um ano antes,
em 1954, foi criada a ULTAB - União dos Trabalhadores Agrícolas do
Brasil. Pouco a pouco foi nascendo o Sindicato dos Trabalhadores
Rurais. O movimento no campo tinha como bandeira principal a Reforma
Agrária. As ligas camponesas eram dirigidas por Francisco Julião, e
os sindicatos rurais pelo PCB.
•
1963 - Fundação da CONTAG.
• 13 de Março de 1964 - Comício na Central do Brasil, Rio de
Janeiro, 200.000 pessoas pelas reformas de base.
• Represária da elite conservadora à Marcha da Família, com Deus,
pela Liberdade.
31 de Março de 1964 - A
longa noite do sindicalismo brasileiro
•1966 -
Acaba a estabilidade no emprego e cria-se o FGTS
Retomada do movimento operário
•
1967 - Cria-se o Movimento Intersindical anti-Arrocho (MIA).
Participaram os sindicatos dos metalúrgicos de São Paulo, Santo André,
Guarulhos, Campinas e Osasco para colocar um fim ao arrocho salarial. Só
o sindicato de Osasco propunha avanços fora dos limites impostos pelo
Ministério do Trabalho.
• 1968 - Greve de Osasco, sob o comando de José Ibrahim.
Iniciada em 16 de julho, com a ocupação da Cobrasma. No dia seguinte, o
Ministério do Trabalho declarou a ilegalidade da greve e determinou a
intervenção no sindicato. quatro dias depois, os operários retornam ao
trabalho. Em outubro de 1968 a greve em Contagem também contra o arrocho
salarial, que também foi reprimida, vencendo o movimento quatro dias
depois.
• Maio de 1978 - (Dez anos depois). As máquinas param, a
classe operária volta em cena. Março de 1979, os braços novamente estão
cruzados. começa a nascer a democracia.
• 12 de março de 1978. Os trabalhadores marcam cartão mas ninguém
trabalha. Das 7 até às 8 horas. A Scania do Grande ABC é a primeira fábrica
a entrar em greve.
• 1979 e 1989. Primeira grande greve do ABCD e a campanha de Luis
Inácio Lula da Silva para presidente.
• Fizeram letra morta toda legislação sindical repressiva.
• 1981 - O Partido dos Trabalhadores cresce.
• 1983, 1992 e 1995. Greve dos PETROLEIROS.
• Agosto de 1983 - Nasce a Central Única dos Trabalhadores -
CUT. Sindicalismo classista e de massas, combativo. Classista porque não
reduz o trabalhador a um vendedor da força de trabalho, ainda que parta
desta condição imposta pelas relações capitalistas de trabalho para
desenvolver sua ação sindical.
O
sindicalismo classista considera o trabalhador dentro de um horizonte mais
amplo, como classe produtora de riqueza social. duas características básicas
definem o sindicalismo classista e de massas da CUT: 1. Sua luta por
atrair a maior participação possível de trabalhadores; 2. sua
capacidade de organizá-los em oposição à classe burguesa. Portanto o
caráter classista da CUT implica em articular as lutas imediatas com o
projeto histórico da classe trabalhadora. E, nesta condição, assumir o
socialismo como perspectiva geral, sempre procurando a participação de
todos os trabalhadores, inclusive dos que sequer ainda chegaram ao
sindicato.
CGT
•
Conciliação de classes;
• Estrutura sindical facista e burocrática anti-democrática;
• Peleguismo, imposto pelo Golpe Militar de 1964;
• Sindicalismo de resultados;
• Populismo;
• Controle do estado sobre a estrutura sindical.
Força Sindical
•
A decomposição acelerada do peleguismo tradicional e o crescimento da
CUT colocaram a necessidade dos empresários e do Estado forjarem uma opção
confiável. Uma opção que aceite e não busque romper com os limites
consentidos pela classe dominante para a prática sindical, o Neopeleguismo.
• Sindicalismo de negócios para defender o capitalismo como opção
histórica com uma prática desvinculada dos partidos operários e com
objetivo de promover a conciliação de classes.
Pensamento da CUT
•
Sindicatos e partidos fazem parte do mesmo movimento: a emancipação
definitiva da classe trabalhadora como obra dos próprios trabalhadores.
FONTE:
Texto retirado do site do SINTSEF.
TOPO
O
sindicalismo no Brasil
Adriane
Lemos Steinke
Acadêmica do 10º período da Faculdade de Direito de Curitiba/PR
Existem
registros históricos que indicam a existência de confrarias com natureza
administrativa e fins religiosos que são comumente confundidas com as
corporações, que embora tenham surgido nas principais cidades do país,
como São Paulo, Rio de Janeiro e Olinda, também não devem ser
confundidas com as corporações medievais.
Seja
como for, não se pode ignorar que a Constituição Imperial de 1824 em
seu artigo 179 tenha abolido as corporações do ofício, simultaneamente
à proclamação da liberdade de trabalho, facultando, portanto, ao
trabalhador o direito de associação, o que posteriormente resultaria na
organização dos sindicatos.
Embora,
no Império, o desenvolvimento industrial no Brasil ainda não fosse tão
expressivo a ponto de criar um ambiente propício para o sindicalismo,
pode-se pontuar a existência de algumas entidades como a Liga Operária
(1870) e a União Operária (1880) que tinham como principal finalidade
reunir e defender os trabalhadores que as compunham.
No
início do século XX foram criadas várias associações de classe, tais
como, a União dos Operários Estivadores em 1903; a Sociedade União dos
Foguistas, também em 1903; a União dos Operários em Fábrica de Tecidos
em 1917, entre outras, que embora não possuíssem caráter sindical já
demonstravam interesse quanto a significação social do sindicalismo e a
importância dos movimentos operários.
Em
1920 surge a Confederação Geral dos Trabalhadores já com tendências
nitidamente marxistas, a qual se opôs veementemente à Confederação
Nacional do Trabalho provocando uma profunda cisão doutrinária da classe
operária, que, entretanto, durou pouco tempo, visto que poucos meses
depois de instalada a Confederação Geral dos Trabalhadores foi declarada
extinta por ato governamental, pois o governo queria impedir que idéias
socialistas e comunistas ditassem as contornos da ação sindical no
Brasil.
Em
janeiro de 1907, com a promulgação do Decreto n. 1637, facultou-se a
todas as classes de trabalhadores a formação de sindicatos, inclusive
para profissionais liberais. A edição deste decreto estimulou a criação
e surgimento de vários sindicatos, sob diversas designações, todas com
frágil poder de pressão, isto porque, foram muitas as dificuldades
enfrentadas pelos primeiros líderes do movimento sindical brasileiro, vez
que, eram perseguidos tanto pelo governo quanto pela classe de
empregadores. Exatamente os grandes empresários eram os mais irascíveis
no combate à organização de qualquer forma de associação, penalizando
àqueles que corajosamente insistiam pela constituição de associações
ou sindicatos.
É
neste quadro contrário que começa a se desenvolver em 1930 uma legislação
trabalhista. Assim, em 1931 houve a promulgação do Decreto n. 19.770 de
19 de março, que pode ser considerada a primeira lei sindical brasileira.
É
mister pontuar que não obstante as estatísticas da época tenham
indicado que com a promulgação do Decreto de 1931, estivesse aberta uma
nova fase para a organização sindical no Brasil, – no mês de junho de
1931 já haviam sido expedidas aproximadamente quatrocentas cartas a
sindicatos de trabalhadores e mais de setenta a sindicatos de empresários
–, também não se pode ignorar que referido Decreto possuía em seu
bojo a franca intenção de retirar o sindicato da esfera privada para
transformá-lo em pessoa de Direito Público atrelado diretamente ao
governo. Por óbvio esta orientação sagrou-se em uma natural inclinação
do Decreto n. 19.770/31, pela unicidade sindical.
Em
relação à organização sindical, a Constituição Federal de 1934, no
artigo 120, impôs ao legislador ordinário a adoção do princípio da
pluralidade.
Com
a promulgação da Constituição Federal de 1937, que substitui de forma
ditatorial a chamada Carta Democrática de 1934, foi novamente consagrado
o comando rígido do princípio da unicidade, subordinando o sindicato ao
Ministério do Trabalho.
Esta
mesma orientação serviu como base para o legislador ordinário,
revelando-se nitidamente na elaboração da Consolidação das Leis do
Trabalho em 1943.
A
carta de 1937, de cunho eminentemente totalitário, foi revogada pela
Constituição Federal de 1946, a qual, não obstante sua natureza
liberal, conservou, em relação à organização sindical, o princípio
da unicidade, princípio este que manteve-se inalterado nas Constituições
de 1967 e 1969, e mesmo causando grande estranheza, permaneceu incólume
na Constituição Federal de 1988, de acordo com o comando expresso em seu
artigo 8º, inciso II, como dispõe, in
verbis:
Art.
8º. É livre a associação profissional ou sindical, observado o
seguinte:
(...)
II
– é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em
qualquer grau, representativa de categoria profissional econômica, na
mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou
empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município;
(...).
A
despeito das boas intenções do Constituinte de 1988, que visa a
estabelecer um regime de efetiva democracia sindical, ao proclamar a
liberdade de associação; ao proibir a intervenção do Estado na
concessão de autorizações prévias para a fundação de sindicatos; ao
garantir a autonomia das entidades de classe; ao conceder ao sindicato
amplo poder de representação; e assim por diante, deve-se, no entanto,
evidenciar que o diploma de 1988 esbarra em duas normas obsoletas adotadas
sob a égide do lobby do
sindicalismo oficial, que afrontam a democracia sindical pretendida pelo
artigo 8º da Constituição Federal de 1988, quais sejam:
a)
unicidade sindical, prevista no inciso II do artigo 8º da Constituição
Federal de 1988;
b) contribuição sindical, prevista no inciso IV, do artigo 8º da
Constituição Federal de 1988, além de estar configurada nos artigos 578
e seguintes da Consolidação das Leis do Trabalho, que apesar de não ser
imposta é admitida pelo Constituinte.
Neste
ponto do presente estudo, faz-se mister ressaltar que embora o regime
totalitário adotado pela Consolidação das Leis do Trabalho, oriundo
inclusive da orientação do Direito Constitucional anterior, em que não
havia probabilidade jurídica para a criação de centrais sindicais,
estas entretanto foram organizadas e nasceram então a Central Única dos
Trabalhadores (CUT); a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e a
Força Sindical, que são atualmente as três mais importantes centrais em
funcionamento no país.
No
entendimento do eminente autor Mozart Victor Russomano: “A criação e a
atuação dessas super confederações é, mais uma vez, a prova de que
continua válida a antiga constatação de que, muitas vezes, os fatos se
rebelam contra as normas jurídicas e, nessa rebelião, vencem-nas,
jogando-as à penumbra do desuso”.1
NOTAS:
1 RUSSOMANO, Mozart Victor. Princípios
Gerais de Direito Sindical. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000, p. 34
Retirado do site:
http://www.ambito-juridico.com.br/aj/dtrab0046.htm
TOPO
HISTÓRIA
DO SINDICALISMO NO BRASIL
"Que
ninguém mais ouse duvidar da
capacidade de luta da classe trabalhadora" - Lula
A indústria
brasileira se desenvolveu tardiamente em relação às grandes potências
capitalistas. Na passagem dos séculos 19 e 20, a economia brasileira era
ainda predominantemente agrícola.
No início
do século 20, jornadas de 14 ou 16 horas diárias ainda eram comuns.
Assim como a exploração da força de trabalho de mulheres e crianças.
Os salários pagos eram extremamente baixos, havendo reduções salariais
como forma de punição e castigo. Todos eram explorados sem qualquer
direito ou proteção legal. A primeira greve no Brasil foi a dos tipógrafos
do Rio de Janeiro, em 1858, contra as injustiças patronais e por melhores
salários.
Os
imigrantes, enganados com promessas nunca cumpridas, trouxeram experiências
de luta muito mais avançadas do que as que haviam no Brasil, e é a
partir deles que se organizou o anarquismo, que foi a posição hegemônica
mo movimento operário brasileiro no período de nascimento e consolidação
da indústria.
Existiam
outras posições de menor influência política entre a classe, como a
dos socialistas, que fundaram o primeiro partido operário no país em
1890, e que, mais tarde, adotaram as teses da 2ª Internacional,
especialmente, a comemoração do 1º de Maio como data internacional da
classe trabalhadora.
Em abril de
1906, realizou-se no Rio de Janeiro, o 1º Congresso Operário Brasileiro,
com a presença de vários sindicatos, federações, ligas e uniões operárias,
principalmente do Rio e São Paulo. Nascia a Confederação Operária
Brasileira (COB), a primeira entidade operária nacional.
Mas a reação
patronal e do governo não demorou. Em 1907, foram expulsos do país 132
sindicalistas. A crise de produção gerada pela 1ª Guerra Mundial e a
queda vertiginosa dos salários dos operários, caracterizou-se por uma
irresistível onda de greves entre 1917 e 1920. A greve de 1917 paralisou
São Paulo e chegou a envolver 45 mil pessoas. O governo convocou as
tropas do interior e 7 mil milicianos ocuparam a cidade. O ministro da
Marinha enviou dois navios de guerra para o porto de Santos. A repressão
era total sobre os trabalhadores. Num dos choques com a polícia, foi
assassinado o operário sapateiro Antonio Martinez. Mais de 10 mil pessoas
acompanharam o enterro. Em 1919, Constantino Castelani, um dos líderes da
União Operária, foi morto por policiais quando discursava em frente a
uma fábrica.
As limitações
do ideário anarquista, entretanto, permitiram o isolamento do movimento,
tornando-se presa fácil do Estado e de sua força policial repressora. A
revolução soviética, em 1917, apontava para a formação de um partido
e a redefinição do papel do Estado.
Com a
"Revolução de 1930", liderada por Getúlio Vargas, é iniciado
um processo de modernização e consolidação de um Estado Nacional forte
e atuante em todas as relações fundamentais da sociedade. Vargas
acabaria atrelando a estrutura sindical ao Estado, destruindo todas as
bases sociais e políticas em que tinha se desenvolvido o movimento
sindical no período anterior.
A partir da
década de 30, o Brasil passou a ser um país industrial e a classe operária
ganhou uma importância maior. O conflito entre capital e trabalho passou
a ser tratado como uma questão política. Por um lado, criou uma
estrutura sindical corporativista, dependente e atrelada ao Estado,
inspirada no Fascismo italiano; por outro, criou o Ministério do
Trabalho, a Justiça do Trabalho e a Consolidação das Leis Trabalhistas
(CLT). A fundação dos sindicatos oficiais, a criação do imposto
sindical e a política populista de Getúlio Vargas estimularam o
surgimento dos pelegos.
A palavra
pelego, que originalmente significa a manta que se coloca entre o cavalo e
a sela de montar, passou a ser utilizada para classificar os dirigentes
sindicais que ficavam amortecendo os choques entre os patrões e o cavalo
que, no caso, era a própria classe trabalhadora.
Categorias
e sindicatos combativos, no entanto, ainda resistiam. E obtiveram
conquistas importantes como a Lei de Férias, descanso semanal remunerado,
jornada de oito horas, regulamentação do trabalho da mulher e do menor,
entre outros.
Junto com
as lutas sindicais cresciam também as mobilizações das massas
trabalhadoras. Em março de 1934, é fundada a Aliança Nacional
Libertadora, dirigida pelo PCB, já com Luís Carlos Prestes..
Entre 1940
e 1953, a classe trabalhadora dobra seu contingente. Já são 1,5 milhão
de trabalhadores nas indústrias e as greves tornam-se freqüentes. Em
1947, sob o governo do marechal Dutra, mais de 400 sindicatos sofreram
intervenção. Em 1951, houve quase 200 paralisações; em 1952, 300. Em
1953, foram 800 greves, a maior delas com 300 mil trabalhadores de
empresas têxteis, metalúrgicos e gráficos. Participação intensa do
PCB e reivindicações que não eram apenas econômicas: liberdade
sindical, campanha pela criação da Petrobras, em defesa das riquezas
nacionais e contra a aprovação e aplicação do Acordo Militar
Brasil-EUA.
No campo,
os trabalhadores iniciaram seu processo de mobilização. Em 1955, surge a
1ª Liga Camponesa. Um ano antes, foi criada a União dos Trabalhadores
Agrícolas do Brasil. Pouco a pouco foram nascendo os sindicatos rurais.
O golpe
militar de 1964 significou a mais intensa e profunda repressão política
que a classe trabalhadora enfrentou na história do país. As ocupações
militares e as intervenções atingiram cerca de 2 mil entidades sindicais
em todo o país. Suas direções foram cassadas, presas e exiladas. A
desarticulação, repressão e controle do movimento foram acompanhados de
uma nova política de arrocho de salários, da lei antigreve nº 4.330 e
do fim do regime de estabilidade no emprego. A ditadura passou a se
utilizar de práticas de tortura, assassinatos e censura, acabando com a
liberdade de expressão, organização e manifestação política.
Na década
de 70, principalmente, começa a surgir um novo sindicalismo, que retomou
as comissões de fábrica e propôs um modelo de sindicato livre da
estrutura sindical atrelada. Este fenômeno aparece com maior nitidez no
ABCD paulista (cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São
Caetano do Sul e Diadema).
Surge, também,
a mais expressiva liderança sindical brasileira de todos os tempos: Luiz
Inácio da Silva, o Lula, que em 1969 participa pela primeira vez da
diretoria de um sindicato, como suplente.
No dia 12
de maio de 1978, os trabalhadores da Saab-Scania do Brasil, em São
Bernardo do Campo (SP), entraram na fábrica, bateram o cartão de ponto,
vestiram seus macacões, foram para os seus locais de trabalho diante das
máquinas, mas não as ligaram: cruzaram os braços. No momento, eles não
poderiam imaginar que com aquele gesto, aparentemente simples, estavam
abrindo o caminho de uma nova proposta sindical para o Brasil. A greve
desafiou o regime militar e iniciou uma luta política que se estendeu por
todo o país. No contexto das mobilizações populares que se seguiram,
surgiram manifestações em defesa das liberdades democráticas e contra a
ditadura militar, entre elas, a luta pela anistia e pelas Diretas Já.
Em 1980,
sindicalistas, intelectuais e representantes do movimento popular fundam o
Partido dos Trabalhadores, com a proposta de estabelecer um governo que
represente os anseios da classe trabalhadora.
Nos dias
24, 25 e 26 de agosto de 1984, é realizado em São Bernardo, o 1º
Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) com a
participação de 5.260 delegados eleitos em assembléias, de todos os
estados do país, representando 937 entidades sindicais. Foram lançados
os princípios de uma nova proposta sindical, que vem mudando o país e
que culminou com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência
do Brasil, em 27 de outubro de 2002.
Fontes:
Retirado do site:
http://www.sintrafesc.org.br/sindicalismo.php
- Imagens
da Luta 1905-1985. Aloízio Mercadante Oliva e Luis Flávio Rainho,
coordenadores, e outros. Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas,
Mecânicas e de Material Elétrico de São Bernardo do Campo e Diadema.
- Site do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal do
Estado da Bahia (Sintsef/BA)
TOPO
A
FLEXIBILIZAÇÃO DA LEGISLAÇÃO DO TRABALHO NO BRASIL
Roberto
Murillo de Souza Filho
Considerada
pelo governo federal fundamental para a consolidação democrática no país,
a reforma sindical e trabalhista, nesta ordem de apresentação e modificação,
vem tomando conta do cenário das discussões sobre o mundo do trabalho na
sociedade brasileira.
O
objetivo governamental, entre outros, para a reforma, é “atualizar a
legislação trabalhista e torná-la mais compatível com as novas exigências
do desenvolvimento nacional, de maneira a favorecer a democratização das
relações de trabalho” e “para alcançar esses objetivos, as alterações
no marco normativo constitucional e infraconstitucional” deverão ter
como premissa “conferir maior efetividade às leis do trabalho e adequá-las
às novas características do mundo do trabalho além de estimular a
autocomposição de conflitos trabalhistas e sua resolução por meio da
conciliação, mediação e arbitragem voluntárias”.
O
governo Lula pretende assim, consolidar a democracia no país alterando a
forma organizacional dos trabalhadores – o fim do imposto sindical e da
unicidade estão entre as principais propostas – e neste momento de
reordenamento e reestruturação dos sindicatos, modificar a consolidação
das leis do trabalho para torná-la mais condizente ao processo de
transformações no mundo do trabalho decorrente do processo de transformações
do capitalismo em escala mundial com significativos reflexos no Brasil.
Este
processo de Reestruturação Capitalista que assume “várias formas
societais ocorrendo de modo desigual, mas combinado, nos vários países
capitalistas centrais e periféricos do mercado mundial [...] se
desenvolve numa dimensão temporal longa, com várias fases de
desenvolvimento, de acordo com a conjuntura política da luta de
classes”.
É uma busca em superar a crise estrutural do capitalismo
evidenciada pela grande crise econômica na primeira metade da década de
1970, de onde o capital financeiro eleva-se hegemônico e determinante na
nova dinâmica de acumulação capitalista – a chamada acumulação flexível.
A
acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto
direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos
processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões
de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção
inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços
financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas
de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação
flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento
desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando,
por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços,
bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então
subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”, Flandres, os vários
vales e gargantas do silício, para não falar da vasta profusão de
atividades dos países recém-industrializados). Ela também envolve um
novo movimento que chamarei de “compressão do espaço-tempo”
no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões
privada e pública se estreitaram, enquanto a comunicação via satélite
e a queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a difusão
imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado.
(Harvey, 1990,p.21)
Apoiando-se
na flexibilidade dos processos de trabalho e dos mercados de trabalho a
acumulação flexível do capital incidirá sua ofensiva na reestruturação
produtiva (também na reestruturação política e na reestruturação
cultural) baseada na lógica toyotista impondo em momentos de grande
desemprego e enfraquecimento do poder sindical, regimes e contratos de
trabalho mais flexíveis, desregulamentando desta forma a relação
trabalho-capital e acentuando a precarização do trabalho com a
terceirização, os contratos temporários, o banco de horas, a redução
da jornada de trabalho com redução salarial entre outros aspectos que
foram incorporados às relações de trabalho.
“A
mescla de elementos predatórios, que ampliam a inseguridade típica da
força de trabalho como mercadoria, e elementos de envolvimento, de caráter
toyotista, é que sedimenta o peso ideológico da flexibilidade e da
flexibilização da legislação trabalhista [...] alguns juristas buscam
apresentar com positividade a flexibilização do Direito do Trabalho,
ressaltando sua adaptabilidade às necessidades da empresa (e, por
conseguinte, do próprio trabalhador assalariado) e seu caráter
concertativo, pois supõe privilegiar o acordo entre as partes
contratantes. O elemento paradoxal (e irônico) é que o apelo à livre
negociação ocorre num período de crise estrutural do sindicalismo e de
sua capacidade de mobilização de classe, além de ocorrer num cenário
de desemprego massivo, o que demonstra o caráter ideológico visceral da
lógica da flexibilização”. (ALVES, Giovanni. Flexibilização da
Legislação Trabalhista-O Panorama Internacional.)
Importante
considerar nesta análise são os desdobramentos sócio-técnicos da III
Revolução Industrial, com o desenvolvimento da micro-eletrônica, da
tecnologia digital e da robótica na
“constituição
de um mundo do trabalho fluido [...] constituído pela utilização
de novas técnicas de organização centradas no just-in-time/kanban,
na produção de tempo real, exigindo fluxos de produção intermitentes e
contínuos [...] de um mundo do trabalho difuso [...] constituído
pelo desenvolvimento das formas de descentralização da produção de mercadorias,
cuja expressão mais clara é a terceirização e a constituição de empresas-rede
[...] e de um mundo de trabalho flexível [...] constituído pela introdução
de novas tecnologias flexíveis de produção, adequadas a situações de
mercados instáveis e de alta concorrência no mercado mundial”.(ALVES,
Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho.)
Submetido
aos ditames desta modalidade de reprodução do capital, o mundo do trabalho
fluido, difuso e flexível vem se caracterizando pela precarização
crescente e pela subproletarização tardia – constituída pelos trabalhadores
assalariados em tempo parcial, temporários ou subcontratados, seja na indústria
ou nos serviços interiores (ou exteriores) à produção do capital (Alves,
1997:12) -, evidenciada no aumento do desemprego, na redução dos postos
de trabalho e redução dos direitos dos trabalhadores em escala mundial.
Significativo
deste processo é o relatório da Organização Internacional do Trabalho
(OIT) de 2003 que estima em 185,9 milhões o número de desempregados no mundo
(aproximadamente a população brasileira) e de cerca de 550 milhões o número
de pessoas que vivem em condição de subemprego – renda diária inferior
a US$ 1- além do aumento do trabalho informal.
Outra
evidência do processo corrosivo da reestruturação capitalista é a notícia
que a Eastman Kodak, maior fabricante mundial de filmes fotográficos, irá
demitir entre 12 mil e 15 mil trabalhadores até 2006 (no Brasil a Kodak possui
duas unidades fabris que empregam 1230 funcionário) para se adequar ao crescimento
da foto digital e cortar gastos da ordem de US$ 1 bilhão até 2007, decisão
aplaudida pelo mercado financeiro fazendo
as ações da empresa liderarem os ganhos da Bolsa de Nova York, nos negócios
do dia 22 de janeiro de 2004.
Em
seu estudo sobre os Impactos das experiências internacionais de reforma
trabalhista e os riscos da flexibilização da CLT no Brasil, Pochman
acentua que os países desenvolvidos, reunidos em torno da OCDE (Organização
de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), onde foram aplicados os
princípios da flexibilização, a partir da década de 1980, buscando
realizar “mudanças estruturais para alavancar o crescimento econômico
sustentado”, agiram de modo a se apoiarem nas forças de mercado e sua
desregulação e a lutar contra a rigidez do sistema de relações de
trabalho, protegido pelo manto estatal, sistema que “foi o principal
acusado pela situação de crise, sobretudo pela escassez de empregos para
todos”. Acrescenta que, apesar dos resultados terem sido diferenciados
“não apontaram para questões objetivas do ponto de vista do bem estar
[...] o nível de emprego, refletido pela relação entre o total da ocupação
e o total da população, não cresceu [...] não houve rebaixamento das
taxas de desemprego [...] constatou-se o crescimento da precarização das
condições e relações de trabalho notado pela elevação da participação
do emprego parcial no total da ocupação”.Emprego parcial sem proteção
trabalhista submetido às contingências da economia de mercado.
O
quadro projetado para os países não desenvolvidos não difere do
retratado acima. É, como aponta Pochman, desprovido de “elevação do nível
de emprego, apontado pela relação entre a participação do emprego
formal no total da ocupação”, com elevada “taxa de desemprego, bem
como a redução, em geral, na cobertura da seguridade social no total de
trabalhadores latino americanos”.
Citando
fontes da OIT (2000) e da OCDE (1999), Pochman salienta que “as reformas
trabalhistas, sem atingir os efeitos esperados, resultaram na precarização
do emprego e maior desproteção social. Desta forma, não há como
afirmar que o rigor dos mecanismos institucionais de proteção do emprego
possa comprometer a geração de empregos”.
Curioso
observar neste estudo é o fato desta reforma trabalhista já estar em
curso no Brasil desde a década de 1990, tornando o mercado de trabalho
brasileiro bastante flexível e com menor proteção social do emprego,
porém, gerando desemprego e precarização da força de trabalho. Extraído
dos estudos de Pochman, o quadro abaixo, nos dá o sentido tomado pela
flexibilização empreendida durante a década neoliberal.
“Síntese
da reforma trabalhista no Brasil”
|
Flexibilização
|
Medida
|
Objetivos
|
|
Contratual
|
1. Cooperativa
profissional ou de
prestação de serviços. (Lei 8949/94);
2. Contrato por tempo
determinado.
(lei 9601/98);
3. Contrato por jornada
parcial.
(MP 1709/98);
4. Suspensão do
Contrato de Trabalho.
(MP 1726/98);
5. Denúncia da Convenção
158 da OIT.
(decreto 2100/96);
6. Setor público:
demissão (lei 9801/99
e lei complementar 96/99);
7. Trabalho temporário
(Portaria 2,
29/06/96);
8. Contrato para micro e
pequenas empresas
(Lei do Simples 9517/96);
9. Terceirização
(Portaria TEM de 1995 e
Enunciado 331 do TST)
|
1. Cria cooperativas de
prestação de serviço, sem
caracterização de vínculo empregatício (sem os
direitos trabalhista da CLT)
2. Reduz critérios de
rescisão contratual e as contribuições sociais;
3. Estabelece jornada de
até 25 horas semanais, com salário e os demais direitos
proporcionais e sem participação do sindicato na negociação.
4. Suspende o contrato
de trabalho, por prazo de 2 a 5 meses, associado à qualificação
profissional, por meio de negociação entre as partes;
5. Elimina mecanismos de
inibição da demissão imotivada e reafirma a possibilidade de
demissão sem justa causa;
6. Define limites de
despesas com pessoal, regulamenta e estabelece o prazo de 2 anos
para as demissões por excesso de pessoal, regulamentando a demissão
de servidores públicos estáveis por excesso de pessoal;
7. Redefine a lei
6.019/74 de contrato temporário, estimulando o contrato de trabalho
precário;
8. Estabelece a unificação
de impostos e contribuições e a redução de parte do custo de
contratação do trabalho;
9. Favorece a terceirização
do emprego e das cooperativas de trabalho.
|
|
Tempo de Trabalho
|
1. Banco de Horas (Lei
9061/1998 e MP 1709/98);
2. Liberação do
Trabalho aos domingos (MP 1878-64/99)
|
1. Define jornada
organizada no ano para atender flutuações dos negócios e prazo de
até 1 ano para sua compensação, através de acordo ou convenção
coletiva;
2. Define o trabalho aos
domingos no comércio varejista em geral, sem necessidade de negociação
coletiva.
|
|
Salarial
|
1. Participação nos
lucros e Resultados (MP 1029/94 e Lei 10.10/2000);
2. Política Salarial
(Plano Real – MP 1053/94);
3. Salário Mínimo (MP
1906/97).
|
1. Define a participação
nos lucros e resultados (PLR) da empresa através da negociação
coletiva de trabalho;
2. Induz a “livre
negociação”, através da eliminação da política de reajuste
salarial do Estado e proíbe as cláusulas de reajuste automático
de salários;
3. Fim da correção do
salário mínimo, sendo seu valor definido pelo Poder Executivo e
introduz o piso salarial regional.
|
|
Organização do
Trabalho
|
1. Fim do Juiz classista
(PEC 33-A/99);
2. Limitação da ação
sindical no setor público (Decreto 2066/96);
3. Ultratividade
acordo/convenção (MP 1620/98);
4. Substituição de
grevistas no setor público (MP 10/2001).
|
1. Acaba com o juiz
classista na Justiça do Trabalho;
2. Estabelece punição
para servidores grevistas e limita o número de dirigentes
sindicais;
3. Inibe a validade de
acordos e convenções até que novos sejam renegociados entre as
partes;
4. Define a contratação
temporária de até 3 meses, renováveis, em caso de greve de
funcionários públicos por mais de 10 dias.
|
|
Demissão
|
1. Comissão de conciliação
prévia – CCP (Lei 8959/2000)
2. Rito Sumaríssimo
(Lei 9957/2000);
3. Fiscalização do TEM
(Portaria 865/95).
|
1. Estabelece condições
de julgamento em primeira instância dos dissídios individuais,
funcionando de forma paritária, mas sem estabilidade para seus
membros;
2. Define procedimento
sumaríssimo para dissídio individual com valor abaixo de 40 vezes
o valor do s.m.;
3. Restringe a autuação
no caso de conflito da legislação com acordo/convenção e
desincentiva a aplicação de multa trabalhista em caso de
ilegalidade trabalhista.
|
Leis,
medidas provisórias (que acabam se eternizando), portarias, enunciados e
decretos, todo um arsenal jurídico mobilizado, através dos braços do
Estado Burguês e Capitalista brasileiro de inspiração neoliberal, para
saciar a voracidade de reprodução do capital, restringindo ações
coletivas e sindicais de resistência.
Aliás,
foi através do Decreto Lei nº 1237, de 2 de maio de 1939, na vigência
do Estado Novo ou Ditadura de Vargas, que foi organizada a Justiça do
Trabalho para, como está redigido em seu artigo 1º, dirimir os
“conflitos oriundos das relações entre empregadores e empregados,
reguladas na legislação social”, constituindo-se em um marco, assim
como a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943, do papel
intervencionista e regulatório do Estado Burguês e Capitalista
hipertardio de “via prussiano-colonial”
que, procurou através da proteção jurídica, instalar uma nova forma de
controle social e de legitimação da ordem capitalista que se desenvolvia
no país.
Atualmente,
como salienta Daniel Mota, analisando o papel da Justiça do Trabalho na década
neoliberal,
A Justiça
do Trabalho influencia-se ideologicamente pelas teses neoliberais,
passando a adotar posições diametralmente opostas à sua própria razão
de ser, omitindo-se na efetivação da garantia judicial de proteção do
trabalhador em troca de uma maior rigidez hermenêutica, como que se o próprio
Direito do Trabalho cedesse terreno ao Direito Civil, como se os princípios
norteadores (e sobretudo protetores) simplesmente deixassem de existir.
A
Justiça do Trabalho, agora, escancaradamente se apresenta como mais um
preposto do capitalismo tardio brasileiro, propiciando um desmantelamento
de grandes proporções não apenas quando atinge o direito material
propriamente dito, mas também naquilo que praticamente garantiu, durante
décadas, a ideologia do trabalho no Brasil: a coexistência do princípio
protetivo através da conjugação do corporativismo com o
protecionismo-legal-estatal... (Mota 2003)
Completado
60 anos de existência, o ordenamento jurídico brasileiro do trabalho,
resultado de ações verticais descendentes do Estado brasileiro
procurando manter a ordem social e o desenvolvimento capitalista, foi alvo
de inúmeras modificações ao longo de sua história tornando-o bastante
desregulado e flexível como sempre desejaram os representantes do
capital, sendo que estas modificações, apesar das pressões, não terem
sido tão profundas e radicais quanto gostariam que fossem.
No
contra-fluxo da maré rapineira da força de trabalho, entendendo esta força
de trabalho transformada em mercadoria para a reprodução do capital
(transformação que nas relações econômicas de troca entre
sujeitos-proprietários determinaram a forma de estabelecimento das relações
jurídicas),
posicionaram-se e posicionam-se as organizações dos trabalhadores, que
em significativos períodos de nossa história fizeram e fazem o
enfrentamento ao capital e aos seus representantes, inclusive dentro das
próprias organizações dos trabalhadores.
Como
resultado da década neoliberal, com o desemprego avassalador e a
precarização do trabalho na ordem do dia, os sindicatos colocaram-se
numa posição defensiva para garantir um mínimo necessário à reprodução
da força de trabalho.
Se
durante a Ditadura Militar (1964/1985) prevaleceu a repressão político-policial,
nos anos neoliberais prevalece a repressão econômica traduzida em “facão”,
principalmente àqueles que fazem o embate às forças do capital.
É,
portanto, num quadro de desemprego massivo, reestruturação capitalista,
descenso do movimento sindical e psicologia do medo, que o governo Lula,
do Partido dos Trabalhadores, num grande leque de alianças (que inclui a
oligarquia rural, os industriais e os banqueiros) em nome da
governabilidade, lança sua Reforma Sindical e Trabalhista e remete as
discussões ao Fórum Nacional do Trabalho, coordenado pela Secretaria de
Relações do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, de onde, o
que for consensuado entre bancada do governo – bancada patronal –
bancada dos trabalhadores (representados, por convite, pela CUT, CGT,
CGTB, CAT, Força Sindical e SDS), será remetido ao Congresso para ser
aprovado, o que dependerá, em última instância, da correlação de forças
dentro do parlamento burguês, ou de suas tradicionais formas de conseguir
maioria na aprovação das leis.
Um
“novo” mundo do trabalho passa a ser redesenhado tendo como fundo o
quadro acima. Da precisão ou incorreção dos traços de seus atores
poderemos ter diante de nossos olhos uma obra semelhante a Guernica, de
Picasso, ou Dança, de Matisse. Todas, entretanto, com o enigmático
semblante de Mona Lisa em Gioconda, de Da Vinci.
NOTA: Trabalho retirado do site:
http://www.espacoacademico.com.br/036/36csouza.htm
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TOPO
Neoliberalismo,
sistema educacional e trabalhadores em educação no Brasil
As
condições de vida e de trabalho dos trabalhadores em educação se
degradaram muito nos últimos anos. Não se trata, é claro, de um
processo unilinear e que atinja a todos por igual. Os professores e
demais funcionários em educação vivem, no Brasil de hoje, situações
muito diferentes. O Brasil não possui um sistema escolar único, ao
contrário do que ocorre nos países de Estado de bem-estar, que têm um
sistema estatal (isto é, público), gratuito e laico. Aqui, temos
escolas e universidades públicas e privadas, laicas e confessionais, e
muitas diferenças no interior de cada uma delas. De qualquer modo, a
situação amplamente majoritária no ensino brasileiro é de remuneração
insuficiente aos trabalhadores, condições de trabalho péssimas ou
inadequadas e desprestígio do trabalho docente junto aos governos, à
imprensa e a parte da sociedade.
Seria
importante fornecer dados sobre a situação apresentada acima. Mas, não
faremos isso aqui. Queremos destacar que a degradação dos
trabalhadores em educação não é uma exceção no cenário brasileiro
atual. O conjunto das classes trabalhadoras brasileiras têm vivido,
desde a implantação do modelo capitalista neoliberal, a degradação
de suas condições de vida e de trabalho. Esse modelo capitalista tem
reservado para os trabalhadores do setor privado o desemprego crescente
e prolongado, o emprego informal, sem direitos e mal remunerado, a redução
ou supressão de direitos e o declínio da média salarial. Muitos
desses sinais dos novos tempos já são amplamente visíveis no ensino
privado. No setor público, o arrocho salarial, já antigo, foi reforçado
pela Lei de Responsabilidade Fiscal, a precariedade foi implantada pela
Reforma Administrativa e a insegurança pelo terrorismo previdenciário
das sucessivas reformas, oficiais e oficiosas, da previdência.As más
condições de vida e de trabalho no setor da educação, apesar de suas
especificidades, fazem parte, portanto, de uma situação geral vivida
pela grande maioria dos trabalhadores brasileiros.
O
subtítulo de nossa conferência traz a frase “por uma política de
valorização profissional”. Pois bem, nós julgamos que essa política,
entendida como um conjunto de medidas amplo e duradouro, que recupere
salário, condições de trabalho e formação permanente, que atinja o
conjunto dos trabalhadores em educação e que esteja apoiada num
sentimento social generalizado de que é importante para o país a
atividade docente de ensino e pesquisa, nós entendemos que uma tal política
de valorização profissional é impossível dentro do modelo
capitalista neoliberal implantado no Brasil ao longo da década de 1990.
Nesse modelo, os trabalhadores, aí incluídos os trabalhadores em educação,
serão sempre desvalorizados. Vejamos porquê.
A
necessidade de mudar o modelo capitalista implantado no Brasil
Antes
da implantação do modelo capitalista neoliberal, processo iniciado com
a posse de Fernando Collor de Melo na Presidência da República em março
de 1990, o Estado brasileiro, no plano da política econômica, era um
Estado desenvolvimentista. Mais ainda, até o golpe militar de 1964,
esse desenvolvimentismo esteve vinculado à política social populista,
e isso, principalmente, no período 1943 a 1964. O desenvolvimentismo e
o populismo visavam a reformulação da antiga divisão internacional do
trabalho, a industrialização do Brasil e a implantação, ainda que
restrita e segmentada, dos direitos sociais. Essa era a política geral
do Estado brasileiro.
Foi
o poder de Estado constituído com a Revolução de 1930 que propiciou
esse modelo. A burocracia de Estado e a burguesia industrial interna
tinham um papel central no bloco no poder e apoiavam-se, politicamente,
em amplos setores dos trabalhadores urbanos para poder contornar ou
vencer os diversos tipos de resistências que as antigas oligarquias e o
imperialismo norte-americano contrapunham à política de
desenvolvimento do capitalismo industrial. É um erro histórico afirmar
que os EUA tinham interesse na industrialização brasileira. O governo
e os capitais americanos resistiram à política de industrialização
de Vargas e de JK. Aderiram a ela depois que ela se tornou um fato,
estimulada, principalmente, por capitais europeus.
Esse
projeto de desenvolvimento econômico e as condições políticas nas
quais ele era implementado, que o tornavam dependente de um certo apoio
popular, estimulavam muito o desenvolvimento de um sistema escolar público,
gratuito e laico, desde o ensino fundamental até a universidade, e
estimulavam, também, um mínimo de pesquisa científica e tecnológica
independente. A indústria precisava qualificar a força de trabalho
operária, os quadros administrativos, a mão-de-obra técnica, e
precisava também de
infra-estrutura e de pesquisa tecnológica nacional; o Estado populista
precisava integrar os trabalhadores urbanos, objetivo que exigia a
ampliação do ensino público, gratuito e laico. Como se sabe, essa foi
a época, não da implantação, mas da expansão da rede de escolas públicas
e da criação da rede de universidades federais e, em alguns casos,
estaduais. Foram também criados muitos institutos de pesquisa
vinculados ao Estado. Os interesses e as expectativas apontavam para um
projeto político de desenvolvimento de um capitalismo de base
minimamente nacional com um mínimo de direitos sociais e de distribuição
de renda.
Na
eleição de 1989, ao optar por Fernando Collor de Melo, a burguesia
brasileira, em parte por opção própria, em parte por pressão externa
e em parte ainda por medo da candidatura de esquerda da Frente Brasil
Popular, decidiu substituir o modelo capitalista desenvolvimentista pelo
modelo capitalista neoliberal. Do populismo, a burguesia brasileira já
havia se livrado em 1964. Restara, contudo, o desenvolvimentismo,
mantido pelos governos militares durante o período da ditadura. Essa
política econômica era o último resquício da Revolução de 1930.
Ela também foi jogada ao mar. A substituição do desenvolvimentismo
pelo modelo capitalista neoliberal, aliada às dificuldades crescentes
do movimento operário e popular na década de 1990, levou ao declínio
da escola pública, à privatização do ensino, à conversão da educação
em mercadoria e à mudança no perfil da universidade. Muitos não se
lembram, mas o Ministro da Educação Paulo Renato afirmou, no início
do primeiro governo FHC, em entrevista à revista Exame,
que a universidade estava se tornando supérflua, que poderia ser
substituída pela prática de enviar alguns estudantes para fazerem
curso superior no exterior e pelo uso da internet. Tal declaração de
ignorância fazia parte do clima do neoliberalismo montante, fase em que
seus porta-vozes podiam se dar ao luxo de serem mais sinceros. É esse
conjunto de mudanças na educação, mudanças decorrentes elas próprias
de uma mudança política e econômica mais geral como indicamos, que
altera a importância e o perfil dos trabalhadores em educação.
Ao
longo da década de 1990, mudou o funcionamento da economia capitalista
no Brasil, mudaram os objetivos da política de Estado e mudaram a posição
política e o poder econômico dos diferentes setores da burguesia
brasileira. Não vou entrar em detalhes naquilo que já é conhecido de
todos. Serei breve.
O
Estado brasileiro promoveu uma ampla abertura comercial e uma também
ampla desregulamentação financeira que, articuladas, concorreram para
o aprofundamento da dependência da economia brasileira frente ao
capital financeiro internacional. Um aprofundamento da dependência que
é, ao mesmo tempo, uma relativa alteração nos termos dessa dependência.
Hoje, o funcionamento do capitalismo brasileiro está dependurado no
fluxo de ingresso de capital financeiro internacional, que permite o
fechamento das contas externas, fluxo esse mantido graças a uma
atrativa (para o capital especulativo) e destrutiva (para os
trabalhadores e para a produção interna) política de juros altos. A
produção industrial interna foi submetida à concorrência
internacional e assistimos ao fenômeno da desindustrialização,
caracterizada pela redução da participação do produto industrial no
conjunto da economia, pela mudança no perfil da indústria, com o
aumento relativo da produção industrial ligada ao setor primário, e
pela desarticulação das cadeias produtivas. Grande parte da indústria
que cresceu ou foi implantada nesse período, é uma “indústria” de
montagem – apenas monta o produto final utilizando componentes que são,
fundamentalmente, importados. A concorrência internacional e a política
de juros altos provocaram uma nova onda de internacionalização do
parque produtivo nacional. Foram drasticamente reduzidos, graças à política
de privatização e de desenvestimento público, o setor estatal
produtivo e de serviços (infraestrutura, comunicações, transporte
etc.).
Abandonando
o desenvolvimentismo, burguesia e o Estado brasileiro abandonaram
qualquer veleidade de implantar um capitalismo nacional e, adotand |